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Parada estratégica

Hoje a tarde recebi um telefonema de um amigo e vizinho meu, Jefferson Otaviano, me avisando que um Falcão – peregrino, Falco peregrinus tundrius estava no telhado do prédio onde moro (0 prédio tem aproximadamente 50 metros de altura), fiquei louco para ir lá, mas o acesso é proibido, pois não há cobertura em meu prédio, somente a casa de máquinas dos elevadores, e um telhado de amianto que não é recomendado para pesos pesados (meu caso), hehe. Interfonei para o síndico, explicando a oportunidade que estava tendo e, depois de alguma resistência ele me acompanhou até a casa de máquinas. Ao abrir a portinhola que dá acesso ao telhado, demos de cara com o bicho, consegui fazer algumas fotos. Que ave maravilhosa!peagEle voou algumas vezes, retornando sem presas. Bentevis, Pitangus sulphuratus vocalizavam o tempo todo, provavelmente eles estão aninhando na parte de cima da casa de máquinas e estavam incomodados com o predador em potencial. peag1

Agradeço ao Jeff Otaviano por ter me avisado, uma pena que o acesso lá seja tão ruim! Fiquei esperando mais tempo, mas ele não retornou. Vou ficar de olho por aqui!

Lagoa do peixe

Recentemente eu e meu amigo e fotógrafo Octavio Campos Salles fizemos uma viagem ao Parque Nacional da Lagoa do Peixe, localizado na cidade de Tavares – RS.

Fomos até lá para fotografar e observar as aves migratórias e residentes desse santuário de espécie incríveis, que deveria ter prioridade de preservação. Digo que “deveria” porque na verdade o que vimos não foi um exemplo de Parque Nacional, pois a quantidade de lixo que encontramos em, pelo menos 30km de praia que percorríamos todos os dias para chegarmos até a barra da lagoa, foi de impressionar.

Em uma dessas idas e vindas, encontramos um filhote de Lobo – marinho, Arctocephalus australis com um pedaço de rede de pesca presa no pescoço, não conseguimos retirar, já que quando nos aproximávamos do filhote, ele se assustava e provavelmente tomaríamos umas belas mordidas.

lobomarinho (1 of 1)

Ficamos consternados com a cena, mais um motivo para alertar a necessidade de medidas serem tomadas pelo órgão responsável pelo parque, que conta com uma Base do IBAMA, diga-se de passagem estava aparentemente fechada todas as vezes em que tentamos ir até lá, nos 7 dias que estivemos hospedados em Mostardas – RS, impossibilitando um contato.

Outro problema muito comum é a invasão de Pinus sp., o pinheiro, que é exótico e retém muita água, além de alterar drasticamente o ambiente, e o que dificulta muito sua erradicação é a forma como ele é dispersado, por ação do vento, que é praticamente constante por lá. Uma sugestão seria de que após o corte dos pinheiros, fosse feito um planejamento para a recomposição da flora nativa, além de um programa de manejo a longo prazo, que infelizmente é muito custoso.

Uma maior fiscalização quanto a caça e pesca também viria a calhar, já que se eu e Octavio fossemos pescadores ou caçadores, aparentemente não teríamos encontrado nenhum empecilho durante a nossa estada.

Inclusive, Octavio encontrou um pato de borracha abandonado, uma “chama” usada para atrair as aves durante as caçadas, pintado com as cores de Netta peposaca, que segundo informações de moradores locais, é a espécie de marreco predileta entre os caçadores. Curiosamente não avistamos sequer um espécime de Netta peposaca!!

Segundo SICK, 1997  a  justificativa da caça vêm dos rizicultores, que afirmam ter prejuízos pelo pisoteio nas plantações, e que parece ter virado uma tradição entre os gaúchos.

É importante salientar que estes problemas não são simples de serem resolvidos, que não tenho gabarito para fazer um pré julgamento da competência das pessoas responsáveis pelo parque. Seria hipocrisia no país em que vivemos, dizer que tudo isso é culpa dos poucos fiscais que atuam em nossos Parques Nacionais, e sim da falta de investimentos, desvio de verbas, e todos os outros “velhos problemas brasileiros”.

Fica aqui registrado a impressão que tive de um dos mais espetaculares ambientes que temos neste país continental, que deveria ser melhor explorado sustentavelmente, e que ainda sobrevive e abriga uma abundância biológica de importância ímpar para tantas espécies.





Predadores da escuridão!

Nada melhor do que estrear o blog com umas das famílias de aves mais peculiares e bem adaptadas à predação. A ordem Strigiformes possui duas famílias, a família Strigidae, que engloba 22 das espécies de corujas brasileiras, e a família Tytonidae representada por uma única espécie no Brasil, a Suindara, Tyto alba.

As corujas, animais que carregam uma porção de  lendas e mitos, e que por vezes pagam pela própria vida por culpa da ignorância das pessoas, que imaginam que animais com vocalizações sombrias na maioria das vezes na calada da noite, olhos grandes e vôo silencioso, trazem mal agouro. Na verdade, para mim, e qualquer outro entusiasta ou estudioso, cada encontro com elas só proporciona felicidade e cada vez mais admiração.

As adaptações sofridas ao longo da evolução por essas aves fascinantes, fazem delas um dos predadores mais bem adaptados da natureza, são mortíferas, até mesmo no escuro absoluto. Têm a visão apurada, uma audição perfeita, totalmente voltada para a caça, seja ela de  artrópodes ou mesmo de vertebrados, como mamíferos e aves. Além disso suas rêmiges são serrilhadas para praticamente anular o ruído das asas cortando o ar durante o vôo.

Ao longo do mês postarei fotos das espécies que tirei durante minhas viagens e “corujadas”, como nós birdwatchers e ornitólogos denominamos as saídas noturnas em busca de uma boa foto ou simplesmente um avistamento.

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Neste primeiro post escolhi uma coruja que passou pelos gêneros, Pseudoscops, Asio e estava até então, no gênero monoespecífico Rhinoptynx e de acordo com a nova lista da CBRO de 09/ 08/2009 voltou a ser incluída no gênero Asio.  Trata – se da Coruja – orelhuda, Asio clamator, coruja de porte avantajado, cerca de 37 centímetros de comprimento, encontrada em quase todo o Brasil, em áreas abertas, cerrado, campos com árvores e arbustos, caatinga e mesmo em cidades, nos bairros mais arborizados. Confesso que tenho mais registros dela em cidades, do que outro lugar, dentro de Campinas – SP, por exemplo, já fiquei sabendo de alguns registros pouco prováveis, o biólogo e amigo Paulo César Araújo já registrou um casal destas corujas no bairro Cambuí, no jardim de um edifício, chegaram a matar uma Zenaida auriculata, que foi abandonada no local, outro amigo e biólogo Tiago Zaiden encontrou um indivíduo de A. clamator no bairro Castelo, local bastante urbanizado.

Tive a oportunidade de acompanhar um ninho, que eu e o professor Dr. Luiz Octavio Marcondes Machado,  meu orientador no Mestrado, amigo e tutor nas pesquisas de comportamento de aves, encontramos por acaso na Fazenda Santa Elisa, pertencente ao IAC, em Campinas. O ninho estava em um capinzal, com um filhote, o qual quase atropelamos, e um dos pais voou desesperado em plena luz do meio dia, foi bem rápido, mas o suficiente para que pudéssemos identificar a espécie.

Voltei no fim da tarde com o amigo e fotógrafo Octavio Campos Salles, para verificar se estava tudo bem e aproveitar a oportunidade para tentar fotografar a espécie. Deu certo, os adultos estavam escondidos em um bosque próximo, e logo no crepúsculo um deles apareceu curioso para ver se o filhote estava bem, assim que a noite caiu o outro apareceu, nervosos, vocalizavam com frequência. De repente, no seringal próximo do ninho, um grito do que parecia ser um roedor ecoou no silêncio da noite, conseguimos ver o vulto da coruja caçando. Foi, sem sombra de dúvidas, o último grito do pequeno mamífero!  orelhudaPesquisando posteriormente me surpreendi com tamanha potência desta espécie de coruja, que podemos, com um pouco de paciência e insistência, encontrar no cerrado, nas áreas rurais ou mesmo urbanas bem arborizadas.

Ela tem o tamanho médio da garra de 9,5 cm, podendo alcançar os 10,5 cm! Entre suas presas (60% delas são mamíferos), além dos marsupiais e ratos, aves, incluindo Tinamiformes, consta um registro de um espécime  jovem de Sylvilagus brasiliensis, Tapeti, uma espécie da ordem dos coelhos (aliás, o único representante brasileiro da ordem), uma presa formidável!

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A. clamator, apesar de ter uma massa corpórea menor (100 g à menos aprox.) que, por exemplo Asio stygius, possui garras e largura de bico maiores. Portanto, se uma noite dessas encontrar uma Coruja orelhuda, saiba que teve a sorte de ver um exímio predador em ação!

Uma dica: Procure memorizar as vocalizações das corujas, porque na maioria das vezes elas passam despercebidas por nós.

Em breve postarei as outras espécies que já tive o prazer de ver e fotografar.

Até lá!

Sejam bem vindos!

Sejam todos bem vindos ao meu blog!

Senti a necessidade de ter um blog para facilitar a comunicação com as pessoas que se interessam pelo estudo, fotografia e tudo que esteja relacionado a avifauna brasileira. Quero trocar experiências, ensinar e aprender.

Um abraço,

Guilherme Ortiz