Quatro meses atrás, fiz uma viagem ornitológica com os amigos Tiago Zaiden e PC Araújo, com destino à cidade de Paraisópolis, uma típica cidadezinha mineira ao pé da Serra da Mantiqueira. Mas nosso destino não era exatamente a cidade, e sim o Parque Ecológico do Brejo Grande, que fica a aproximadamente 12 km do centro de Paraisópolis.
Formado por 217 hectares de área total, a paisagem é composta de Floresta Ombrófila Mista Alto Montana secundária, com presença de Araucaria angustifolia. Existe também um represa (por sinal uma das mais altas do país), que delimita um dos lados do remanescente.
Escolhemos um vale, entre dois picos, um de 1697m e outro de 1936 m, montamos o acampamento à 1471 metros de altitude.
Chegamos no local escolhido já era noite, estávamos procurando uma área limpa (sem pedras e galhos, que danificam o fundo da barraca) na clareira e pedi para que o PC colocasse playbacks de possíveis espécies de corujas que vivem naquele tipo de ambiente.
Não deu outra, logo na primeira reprodução da vocalização de Strix hylophila já ouvi a resposta. Meus amigos desconfiaram um pouco, pois já haviam estado lá antes e não ouviram corujas.
Logo PC viu um vulto passando pela clareira, a lua cheia ajudava na visualização. Lanternas à postos, logo a coruja apareceu, no alto de uma árvore, vocalizando e olhando em nossa direção, tentei algumas fotos, que não ficaram muito boas devido à distância que ela permanecia de nós.
Era a primeira vez que víamos um exemplar desta espécie. Após alguma insistência a coruja acabou pousando muito próxima de onde estávamos, em uma grande Araucária, e conseguimos fazer fotos muito boas dela.

Um das primeiras fotos, um pouco longe, já tinha me contentado, mas ela resolveu colaborar!

Pousou na nossa cara, foto sem crop, tive que dar um passo para trás para que enquadrasse melhor, vocalizou desta distância, foi de arrepiar!

A espécie é considerada “quase ameaçada de extinção” em função da destruição do hábitat e da falta de estudos sobre a biologia da espécie.

Apesar de ser considerada endêmica do bioma Mata Atlântica, a Coruja – listrada foi registrada no Campus da Universidade Estadual de Goiás, em Anápolis-Go, no cerrado ralo, mas se quiser ter maiores chances de vê – la, procure por ela em regiões de Mata Atlântica (ex. Intervales, Pq. estadual da Serra do Mar, etc) ou Mata ombrófila mista (por ex: Campos do Jordão – SP, Monte Verde – MG, e região Sul, como Blumenau – SC) ou seja, na região de Mata Atlântica que tenha a presença de Araucárias.
Por duas noites, durmimos ao som de Strix hylophila, cantaram no início da noite 21hrs até umas 23hrs e depois de madrugada, 3hrs da manhã. Certa vez, o prof. Jacques Vielliard me disse que este comportamento é comum dentre as corujas, o momento em que sentimos a ausência das vocalizações, elas estariam caçando, retornando de madrugada, e cantando no território. Foi exatamente o que percebemos naquelas noites.
Na segunda noite, empolgados com a presença de corujas na área, decidimos subir até uma pedra, que nos dava uma visão privilegiada da borda do remanescente e de um pasto aberto à frente. A luz da lua cheia facilitava a visualização do local. Procurando por aves noturnas, chegamos a ver de relance uma grande ave passando pela clareira e sumindo na mata densa, não conseguimos identificar, mas provavelmente seria uma Strix hylophila em suas caçadas.
E de dentro da barraca a sinfonia se extendia pela madrugada, consegui perceber pelo menos três indivíduos de Strix hylophila na região, fizeram todas as vocalizações que já ouvi no XenoCanto e mais uma, que nunca ouvi em gravações. Infelizmente, não tivemos condições de registrá – lo. Agora estou providenciando um gravador, equipamento que me fez muita falta até hoje. Logo logo espero mostrar para vocês também os sons desses maravilhosos animais que tanto admiro, nossas aves.
Um abraço à todos,
Guilherme Gallo Ortiz