Nada melhor do que estrear o blog com umas das famílias de aves mais peculiares e bem adaptadas à predação. A ordem Strigiformes possui duas famílias, a família Strigidae, que engloba 22 das espécies de corujas brasileiras, e a família Tytonidae representada por uma única espécie no Brasil, a Suindara, Tyto alba.
As corujas, animais que carregam uma porção de lendas e mitos, e que por vezes pagam pela própria vida por culpa da ignorância das pessoas, que imaginam que animais com vocalizações sombrias na maioria das vezes na calada da noite, olhos grandes e vôo silencioso, trazem mal agouro. Na verdade, para mim, e qualquer outro entusiasta ou estudioso, cada encontro com elas só proporciona felicidade e cada vez mais admiração.
As adaptações sofridas ao longo da evolução por essas aves fascinantes, fazem delas um dos predadores mais bem adaptados da natureza, são mortíferas, até mesmo no escuro absoluto. Têm a visão apurada, uma audição perfeita, totalmente voltada para a caça, seja ela de artrópodes ou mesmo de vertebrados, como mamíferos e aves. Além disso suas rêmiges são serrilhadas para praticamente anular o ruído das asas cortando o ar durante o vôo.
Ao longo do mês postarei fotos das espécies que tirei durante minhas viagens e “corujadas”, como nós birdwatchers e ornitólogos denominamos as saídas noturnas em busca de uma boa foto ou simplesmente um avistamento.

Neste primeiro post escolhi uma coruja que passou pelos gêneros, Pseudoscops, Asio e estava até então, no gênero monoespecífico Rhinoptynx e de acordo com a nova lista da CBRO de 09/ 08/2009 voltou a ser incluída no gênero Asio. Trata – se da Coruja – orelhuda, Asio clamator, coruja de porte avantajado, cerca de 37 centímetros de comprimento, encontrada em quase todo o Brasil, em áreas abertas, cerrado, campos com árvores e arbustos, caatinga e mesmo em cidades, nos bairros mais arborizados. Confesso que tenho mais registros dela em cidades, do que outro lugar, dentro de Campinas – SP, por exemplo, já fiquei sabendo de alguns registros pouco prováveis, o biólogo e amigo Paulo César Araújo já registrou um casal destas corujas no bairro Cambuí, no jardim de um edifício, chegaram a matar uma Zenaida auriculata, que foi abandonada no local, outro amigo e biólogo Tiago Zaiden encontrou um indivíduo de A. clamator no bairro Castelo, local bastante urbanizado.
Tive a oportunidade de acompanhar um ninho, que eu e o professor Dr. Luiz Octavio Marcondes Machado, meu orientador no Mestrado, amigo e tutor nas pesquisas de comportamento de aves, encontramos por acaso na Fazenda Santa Elisa, pertencente ao IAC, em Campinas. O ninho estava em um capinzal, com um filhote, o qual quase atropelamos, e um dos pais voou desesperado em plena luz do meio dia, foi bem rápido, mas o suficiente para que pudéssemos identificar a espécie.
Voltei no fim da tarde com o amigo e fotógrafo Octavio Campos Salles, para verificar se estava tudo bem e aproveitar a oportunidade para tentar fotografar a espécie. Deu certo, os adultos estavam escondidos em um bosque próximo, e logo no crepúsculo um deles apareceu curioso para ver se o filhote estava bem, assim que a noite caiu o outro apareceu, nervosos, vocalizavam com frequência. De repente, no seringal próximo do ninho, um grito do que parecia ser um roedor ecoou no silêncio da noite, conseguimos ver o vulto da coruja caçando. Foi, sem sombra de dúvidas, o último grito do pequeno mamífero!
Pesquisando posteriormente me surpreendi com tamanha potência desta espécie de coruja, que podemos, com um pouco de paciência e insistência, encontrar no cerrado, nas áreas rurais ou mesmo urbanas bem arborizadas.
Ela tem o tamanho médio da garra de 9,5 cm, podendo alcançar os 10,5 cm! Entre suas presas (60% delas são mamíferos), além dos marsupiais e ratos, aves, incluindo Tinamiformes, consta um registro de um espécime jovem de Sylvilagus brasiliensis, Tapeti, uma espécie da ordem dos coelhos (aliás, o único representante brasileiro da ordem), uma presa formidável!

A. clamator, apesar de ter uma massa corpórea menor (100 g à menos aprox.) que, por exemplo Asio stygius, possui garras e largura de bico maiores. Portanto, se uma noite dessas encontrar uma Coruja orelhuda, saiba que teve a sorte de ver um exímio predador em ação!
Uma dica: Procure memorizar as vocalizações das corujas, porque na maioria das vezes elas passam despercebidas por nós.
Em breve postarei as outras espécies que já tive o prazer de ver e fotografar.
Até lá!